Terminou no passado fim de semana o primeiro fórum da vitivinicultura açoriana. Deste fórum foram identificadas experiências, progressos e dificuldades. Ficou claro que a vitivinicultura açoriana é uma realidade agrícola, económica, cultural e territorial, que se decide no futuro muito para além da vinha e da adega.
Ao longo do fórum foram percorridas cinco dimensões: a internacionalização e os mercados; a produção, a identidade e o património; o território e a cooperação; o enoturismo e a gastronomia e o consumo, sendo apresentadas nove conclusões, tal como divulgou Sara Santos na sessão de encerramento.
Sara Santos: "Internationalizar não pode ser apenas "exportar mais", tem de significar "vender melhor" e criar valor. O debate destacou a importância de conhecer os mercados, preparar as empresas, definir prioridades e avaliar os recursos disponíveis. Colocar uma garrafa noutro país não chega, sobretudo se os custos de operação a marginam, importa por isso assegurar que cada produtor que quer internacionalizar-se deve construir uma estratégia com mercados prioritários, para esses sustentáveis, canais de distribuição definidos e objetivos mensuráveis, recorrendo à formação e aos apoios e instrumentos disponíveis.
A segunda conclusão é que a singularidade dos vinhos açorianos não se afirma sozinha. A reflexão sobre a promoção internacional dos vinhos portugueses evidenciou oportunidades para uma maior presença dos Açores nos mercados externos. A nossa origem vulcânica, as castas e a história despertam curiosidade, mas a curiosidade não basta para construir mercados. É necessário, por isso, uma presença coordenada e continuada dos vinhos açorianos nas ações de promoção, articulada entre produtores e entidades do setor, com uma narrativa comum que respeite a identidade de cada ilha e de cada marca. Mas nenhum êxito comercial será duradouro se a vinha que lhe dá origem não conseguir sobreviver. Foi essa a exigência central do debate sobre produção, identidade e património.
A terceira conclusão é decisiva: Não haverá paisagem vitivinícola viva sem explorações economicamente viáveis. As intervenções sobre viticultura heroica, castas, adaptação às alterações climáticas e associativismo evidenciaram tanto a singularidade da produção açoriana como a importância da organização coletiva. Custos elevados, parcelas fragmentadas, escassez de mão-de-obra, doenças e limitações à mecanização comprometem a continuidade da atividade. É por isso fundamental colocar a rentabilidade do viticultor no centro das políticas do setor, conhecer os custos reais de produção, promover soluções técnicas adaptadas, reforçar a cooperação e orientar os instrumentos de apoio para a permanência efetiva da vinha em produção.
A quarta conclusão é que preservar o património exige capacidade de inovar. A história e o potencial dos vinhos licorosos açorianos, bem como a experiência da Madeira, mostraram que territórios atlânticos com dificuldades semelhantes podem aprender uns com os outros. Daqui resulta a prioridade de investir na preservação das castas e do conhecimento tradicional, mas também na experimentação, na qualificação enológica e em soluções de valorização comercial, com particular atenção aos vinhos licorosos, cuja identidade merece ser protegida e cujo potencial não deve ficar por explorar. Da vinha passamos ao território, porque a viticultura não existe isolada, depende das comunidades, das instituições e da capacidade de trabalhar em conjunto.
A quinta conclusão é que não existe uma resposta única para todas as ilhas. O debate sobre o papel dos municípios e o futuro da vitivinicultura evidenciou a importância da cooperação entre produtores, instituições e entidades públicas. As condições naturais, a escala das explorações e as necessidades de cada ilha são diferentes. Surge assim o desafio de manter uma agenda de cooperação regional, com prioridades partilhadas, com medidas territorialmente ajustadas, envolvendo os municípios e o vinho diretamente quem cultiva e transforma.
A sexta conclusão é que recuperar a vinha só será plenamente transformador se se permitir criar e reter valor económico nas próprias ilhas. O projeto notável desenvolvido em Santa Maria, incluindo a aposta na capacidade de vinificação local, demonstra que recuperar a paisagem pode também gerar conhecimento, emprego e novas atividades. Revela-se fundamental ligar os projetos de recuperação vitícola à transformação, à comercialização e a outros serviços locais, para que o investimento não se esgote na reabilitação física da vinha e os seus benefícios permaneçam nas comunidades. É precisamente essa ligação entre produção, paisagem e pessoas que nos conduz ao enoturismo.
A sétima conclusão é que o enoturismo deve afirmar-se como uma atividade económica estruturada e não apenas como um complemento ocasional à venda de vinho. As intervenções destacaram as dimensões económica, ambiental, cultural e social da sustentabilidade, as tendências internacionais e os novos perfis de visitantes. A partilha de experiências concretas dos Açores mostrou o potencial desta atividade, mas também os obstáculos persistentes, como a sazonalidade, as acessibilidades e a formação. Torna-se assim necessário qualificar as experiências, diversificar a oferta, formar as equipas e criar parcerias entre produtores, alojamento, restauração e agentes culturais com propostas comercializáveis ao longo de mais meses do ano. Por fim, o vinho encontra o consumidor, e é na gastronomia, na restauração e no comércio que grande parte da sua reputação se confirma ou se perde.
A oitava conclusão é que a restauração não pode ser apenas um ponto de venda, deve assumir-se como embaixadora dos vinhos açorianos. O debate da vinha à mesa reforçou o papel do restaurante como lugar de descoberta e recomendação. Uma carta bem construída, o conhecimento das castas, a temperatura, o serviço e a capacidade de explicar a origem de um vinho podem transformar uma refeição numa experiência memorável. Promover formação prática para as equipas de sala, reforçar a presença qualificada dos vinhos regionais nas cartas e aproximar restaurante e produtores através de provas e ações conjuntas foram algumas das soluções que ouvimos.
A nona conclusão é que a valorização do vinho exige uma relação mais próxima e transparente entre todos os elos da cadeia. O debate reuniu perspetivas diferentes sobre comercialização, serviços, preços, hábitos de consumo e valorização gastronómica. Nem sempre houve concordância, e essa diversidade foi útil. "
